A Kähler faz cerâmica em Næstved, na Dinamarca, desde 1839, e grande parte da sua reputação assenta na superfície: é o vidrado, mais do que a silhueta, que fica na memória. Este artigo mostra como três séries atuais, Ombria, Kantarel e Orangery, regressam ao hábito de atelier de deixar a cor acumular-se, quebrar e mudar, e o que isso significa para a jarra ou o prato que leva para casa.
Um atelier que pensava em vidrados
A Kähler começou como uma olaria de província numa vila de mercado a sul de Copenhaga e, durante gerações, foi gerida como um atelier familiar. O seu lugar no design dinamarquês cresceu graças à vontade de tratar o vidrado como um campo artístico de pleno direito e ao trabalho próximo com pintores, escultores e arquitetos que procuravam superfícies cerâmicas com profundidade e movimento. Na Dinamarca, o nome tornou-se sinónimo de cerâmica de autor que ficava tão bem numa sala de estar como numa vitrina de museu.
Essa visão de atelier importa mais do que qualquer data. Num atelier, um vidrado não é uma demão de tinta. É uma camada de minerais que funde no forno, escorre pelas arestas, fica mais fina nos relevos e junta-se nas cavidades. Duas peças mergulhadas no mesmo banho e cozidas lado a lado saem aparentadas, mas nunca idênticas. A Kähler construiu o seu carácter aceitando essa variação em vez de a combater, e essa atitude é o fio que liga o arquivo à coleção atual.
Hoje a empresa integra o Rosendahl Design Group, ao lado de nomes como Holmegaard e Lyngby Porcelæn, e os seus designers trabalham com séries em vez de peças únicas. A questão interessante é saber como uma série produzida em quantidade consegue manter a irregularidade que antes vinha dos fornos pequenos e de cada mão. As três coleções seguintes respondem de formas diferentes.
Ombria: cor construída em camadas

Ombria é a herdeira mais direta da tradição do vidrado de atelier na coleção atual. A série usa um vidrado em camadas, pelo que a cor que se vê resulta de uma camada pousada sobre outra e, em parte, através dela. Onde as camadas são mais espessas, o tom aprofunda-se; onde ficam mais finas sobre uma curva, surge uma cor mais clara. O efeito é uma superfície que muda à medida que passamos por ela.
A Ombria Vase H20 cm marble mostra-o bem. Com 20 cm de altura, tem uma medida prática para uma mesa de jantar ou um aparador: alta o suficiente para segurar uns ramos de eucalipto ou uma única dália, baixa o suficiente para não atrapalhar a conversa de um lado ao outro da mesa. A variante marble aposta em veios suaves em vez de um contraste forte, e é por isso que também resulta vazia: o vidrado dá ao olhar algo para seguir, mesmo sem flores.
Como é a superfície que faz quase todo o trabalho, Ombria assenta bem em ambientes simples. Coloque-a sobre carvalho natural, pedra ou linho e deixe que a cor em camadas seja o pormenor. Ao lado de loiça com padrões carregados, perde a sua vantagem discreta.
Kantarel: uma forma da floresta com carácter reativo

Kantarel é da autoria da ceramista Thora Finnsdottir e vai buscar o nome e as formas suaves e dobradas ao cantarelo, o cogumelo a que os dinamarqueses chamam kantarel. Se Ombria fala de cor sobre uma forma calma, Kantarel põe forma e vidrado em diálogo. As dobras criam cristas e vales, e o vidrado comporta-se de maneira diferente em cada um: fica mais fino nos topos e acumula-se nas depressões, por isso o verde parece mais claro nos bordos e mais intenso nas pregas. É exatamente o comportamento que os ceramistas de atelier valorizam nos vidrados reativos, aqui guiado pela própria forma.
A Kantarel Vase H20.5 cm green é feita em grés e mede 20,5 cm de altura, 21,5 cm de largura e 22,5 cm de profundidade, com um peso de 1,325 kg. Estas proporções contam. Quase tão larga como alta, assenta baixa e generosa, com uma presença mais próxima de uma taça do que de uma esguia jarra garrafa. Hastes do jardim soltas, fetos ou um punhado de túlipas a cair para fora ficam-lhe melhor do que um ramo apertado e direito.

A mesma linguagem surge numa escala muito menor no Kantarel Dish small green: 2 cm de altura, 14,5 x 14 cm e 0,21 kg. Num prato tão raso, o bordo dobrado torna-se o protagonista, e o vidrado que se junta no centro dá-lhe um coração mais escuro. Funciona numa consola de entrada para as chaves, numa mesa de cabeceira para os anéis ou num parapeito ao lado da jarra, como um eco mais discreto. As duas peças Kantarel devem ser limpas com um pano húmido e não vão à máquina de lavar loiça, algo que convém saber antes de usar o prato para servir.
Orangery: o calor da estufa

Orangery recorre a outro tipo de memória: a estufa e o jardim de inverno, lugares onde as plantas ficam abrigadas enquanto lá fora o tempo está cinzento. A série traduz essa ideia em vidrados quentes, e a variante sweet honey é o exemplo mais claro, um tom âmbar que se lê de forma diferente à luz da manhã e sob um candeeiro à noite.
A Orangery Vase H18 cm sweet honey é, com 18 cm, a mais baixa das três jarras aqui apresentadas. Isso torna-a uma escolha natural para a mesa da cozinha, uma prateleira da casa de banho ou uma secretária, onde uma jarra mais pequena com uma só haste ou uns raminhos de ervas aromáticas parece a medida certa. A sua cor também faz a ponte entre materiais: o vidrado mel combina sem esforço com latão, nogueira e têxteis cor de creme, e suaviza uma divisão de branco frio sem acrescentar padrões.
Três vidrados lado a lado
| Ombria | Kantarel | Orangery | |
|---|---|---|---|
| Peça apresentada | Jarra H20 cm, marble | Jarra H20,5 cm e prato pequeno, verde | Jarra H18 cm, sweet honey |
| Origem da variação | Vidrado em camadas, com a cor a mudar através delas | Vidrado a deslizar sobre cristas e cavidades dobradas | Vidrado quente que muda com a luz |
| Inspiração | Profundidade da cor | O cogumelo cantarelo | Estufas e jardins de inverno |
| Material | Cerâmica vidrada | Grés, de Thora Finnsdottir | Cerâmica vidrada |
| Ideal para | Mesas de jantar e aparadores com superfícies simples | Arranjos soltos e pendentes, e composições em grupo | Cozinhas, secretárias e pequenas prateleiras |
Viver com uma superfície irregular
O encanto destes vidrados é também o seu principal aspeto prático: não há duas peças exatamente iguais, e a fotografia do produto é uma orientação, não uma promessa. Se escolher duas, conte com irmãs, não com gémeas. A maioria de quem escolhe Kähler vê nisso precisamente a razão para ter estas peças.
Ao agrupar, junte uma superfície forte a outras mais calmas. Uma jarra Kantarel com uma jarra Ombria resulta porque uma se destaca pela forma e a outra pela cor; juntar a jarra Orangery acrescenta um apontamento quente a uma altura menor, e assim as três descem de 20,5 cm para 20 cm e depois para 18 cm. Se quiser mais ideias para dispor peças Kähler por altura e tom, o nosso guia para agrupar jarras Kähler por altura e cor aplica o mesmo raciocínio a Omaggio e Hammershøi.
A luz é o último ingrediente. Os vidrados que se acumulam e quebram parecem baços sob uma luz dura vinda de cima e ganham vida com luz lateral de uma janela ou de um candeeiro baixo, que realça os relevos e as arestas finas. Coloque estas peças onde a luz as atravesse, não onde caia a direito.
Para ver estas séries ao lado de vidro, porcelana e outras cerâmicas, explore toda a coleção Jarras e vasos.
